Chovia naquela manhã de sábado quando por alguns instantes pensei em sair de casa e a caminhar sem destino. Estava de estômago vazio, mas disposto a falar com Deus em lugar tranqüilo. Era mancebo fervoroso na fé. Pedidos naquela época eram atendidos por meio da oração.
Falava sobre morte, mas por quê? Era espirituoso o suficiente para já pensar no céu? Era fantasioso ao extremo a ponto de desejar o impossível? Não sei por que, mas só falava em morte.
Caminhando naquela manhã - insistia eu: Senhor revela-me como revelastes aos profetas antigos. Fala comigo! Revela-me que realmente a morte existe, pois me sinto deveras confuso e abatido. Clamando em silêncio - insistia eu: mostra que a morte existe!
Uma hora da tarde: meus pés caminhavam lentamente. Rosto molhado pela garoa. Parecia um apostolo no deserto. Num campo abandonado parei, onde a mata era seca e de espinhos. Insetos picavam minha pele e perturbavam meus olhos, mas já cansado e decidido a voltar para casa, clamei pela ultima vez: Senhor mostra-me que a morte existe! Não me pergunte, caro leitor, porque falava insistentemente nessa mórbida e temível palavra.
Chamem-me de louco, mas é verdade, fui levado pelo destino obscuro a me encontrar com aquele terrível cadáver já em estado de putrefação. Cabelos em pé, ali fiquei - perplexo e horrorizado. As moscas entoavam como aeronaves de guerra sobre aquele corpo. Sai cautelosamente a me perguntar, mas como? O que me levou a sair de casa em pleno sábado de chuva, com fome, apenas disposto a orar? Teria sido uma revelação ou um espírito que me conduziu aquela desova? Revelação ou Coincidência, esse fato aconteceu.
Ao sair daquele lugar, fui ao telefone público a relatar tal fato a policia, o que infelizmente não me deram crédito. Quatro dias mais tarde é que saiu no jornal local que um homem havia sido encontrado morto nas proximidades de Santa Rosa e que suspeitas levantadas davam conta de que se tratava de um homicídio e que o tal homem fora vitima de um homicídio. Esse fato aconteceu há 15 anos.
Terá sido à força da fé ou uma simples coincidência? Dizem que quando pedimos algo com fé, as coisas acontecem. Bem que eu deveria ter pedido algo bem melhor, tipo assim ganhar na loteria. Acho que é melhor pensar antes o que pedir a Deus para depois não se arrepender.
Em 1974 me achava fazendo a especialização em neurocirurgia, quando no entardecer recebi um telefonema angustiante e desesperador. Do outro lado da linha, meu pai chorava copiosamente e pedia meu retorna para casa, visto minha irmã estava acometida de doença grave.
Fui para casa e encontrei minha família destroçada pela dor e pelas insônias persistentes. Minha irmã se achava como sempre bonita, porém mais magra e pálida e seus olhos de encontro aos meus pedia vida. Conversei com meu amigo hematologista, Dr. João Marinheiro que deu diagnóstico de leucemia e de péssimo prognóstico. Levei para São Paulo e aos cuidados de Dr. Celso Guerra começamos a grande batalha par trazer-la para o conforto dos nossos familiares. Iniciada terapêutica, durante trinta dias, minha irmã passou pela estrada da vida e morte por várias vezes, período este que minhas lágrimas foram abundantes e meus pesadelos maiores, minha irmã entrou em remissão. Pedi a Deus a graça de, na escola do sofrimento, poder aprender a autoconquísta, e em meio á tristeza, ainda que por contra a vontade, aprender também o autodomínio. Não pude, e picotei uma Bíblia que minha mãe me deu quando era jovem.
Após os trinta dias, minha irmã recebeu alta com terapêutica
orientada e diagnóstico firmado de leucemia mielóde aguda com
sobrevida entre seis meses e um ano. Vim para casa e por usar corticoides
em alta dose, ela se apresentava mais bela, sendo motivo de alegria para toda
família. Aos meus pais disse tratar de uma pequena hipoplasia na medula
em decorrência do uso abusivo de analgésicos.
Em 1975, minha irmã casou e mesmo com uso de terapêutica básica
para doença, teve três filhos saudáveis e belos. Após
cinco anos de terapêutica foi suspensa a medicação. Este
mês minha irmã completou 4x15 anos com grande festa com amigos
e familiares. De 1974 até 2008 foram 34 anos de alegria, muito amor
e fé. Neste período meu pai morreu e minha mãe se enveredou
pelo mundo de penumbra do mal de Alzeihmer, porém levando consigo apenas
a certeza de uma hipoplasia medular.
Agora a minha irmã se acha mais bela que nunca, trazendo consigo o amor grandioso e dos filhos e marido. E Deus na sua bondade perdôo a minha ofensa a Bíblia, e nos entregou de forma magistral uma bonita rosa cercada por outros seis irmãos homens e familiares. Até pouco tempo este segredo era guardado a sete chaves por mim, minha esposa e seu marido.