Diário da Borborema

Campina Grande, Quarta-Feira, 27 de Agosto de 2008

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O mito da energia limpa

Benedito Antonio Luciano*

Provavelmente, por conta da greve nos correios, somente na semana passada recebi o informativo publicado pelo Movimento de Solidariedade Ibero-americana (www.msia.org.br) na primeira quinzena de junho de 2008. O tema dessa edição especial é destacado na capa, sob o título: "Greenpeace: obscurantismo anticientífico na América do Sul". Trata-se, evidentemente, de uma contra-ofensiva ao processo de "engenharia ideológica" promovido por esse que é um dos mais famosos representantes do movimento ambientalista internacional.

Nas vinte e três páginas do citado informativo o alvo é a atuação política do Greenpeace: organização não-governamental criada em 1971, em Vancouver, no Canadá, por um grupo de imigrantes americanos, com a finalidade de atuar, internacionalmente, em questões relativas aos recursos energéticos e ambientais, em particular no combate ao emprego da energia nuclear.

A rigor, a discussão sobre energia e meio ambiente não é nova. Há cerca de trinta anos, numa palestra pública, ouvi um "especialista" prognosticar que as reservas mundiais de petróleo estariam esgotadas por volta de 2007. Os trinta anos se passaram e a previsão não se concretizou. Pelo contrário, novas reservas foram descobertas. Lembro que na oportunidade o "especialista" defendia como salvação o amplo emprego de "energias alternativas", como a energia eólica, biomassa e solar.

Curiosamente, o mito das "energias alternativas" ou "energias limpas" até hoje é cultuado pelos arautos do ambientalismo. Ora, como se pode falar em "energia limpa" se nos dias atuais todas as formas de conversão energética dominada tecnologicamente pelo homem causam, em maior ou menor escala, impacto ambiental? E como considera-las "alternativas" se tais fontes apresentam baixa densidade de fluxo energético, uma limitação que as tornam incapazes de atender isoladamente às necessidades das grandes concentrações urbanas e industriais? Exemplificando, para os coletores solares o valor da densidade de fluxo energético é de 0,2 kW/m2 e para os reatores nucleares o valor varia entre 10.000 a 200.000 kW/m2.

Portanto, não se justifica a intolerância com relação à tecnologia nuclear utilizada para fins pacíficos, a não ser por meio de argumentos tendenciosos. Físicos e engenheiros ideologicamente isentos sabem que a tendência da matriz energética mundial é a diversificação das fontes energéticas e que, nesse cenário, as "energias alternativas" são, de fato, complementares, pois as necessidades dos grandes consumidores de energia serão atendidas pelos sistemas elétricos interligados (geração concentrada: usinas hidrelétricas e usinas nucleares), cabendo às energias complementares os usos restritos e localizados (geração distribuída: solar, célula combustível, eólica, biomassa).

*Professor do DEE/UFCG

A rapadura é nossa

Tobias Di Pace*

Trabalhei por três décadas como Estatístico do Instituto Brasileiro de Geografia -IBGE, onde tínhamos acesso através de pesquisa, do que acontece em todos segmentos da sociedade brasileira - o famoso Recenseamento Geral.

Em uma dessas pesquisas , caímos em campo, no levantamento estatístico da população, comércio prestação de serviços e indústria, um verdadeiro inventário da realidade brasileira.

No levantamento de engenhos de cana de açúcar, que na época da colonização era dirigida com mão de ferro, pelos senhores de engenho, com farta mão de obra escrava, produzia-se a rapadura, açúcar mascavo, aguardente, como é ainda hoje, com exceção da escravidão, abolida através da lei áurea da Princesa Isabel .

Recentemente vi uma reportagem veiculada no Jornal Hoje da TV Globo, que os alemães patentearam um dos produtos mais genuinamente nordestinos: a nossa rapadura. Logo ela? Será que esses gringos falsários conhecem?

Ela, que no passo a passo, tem seu início com a cana desengordada a coitada. Lá ela é "mastigada, triturada", Precisa ver. Umas máquinas grandes e dentadas moem, moem, moem... daí sai o caldo, ou a garapa, como quiser. Pouco tempo depois, esse caldo é fervido e, quente feito "barguia" de ferreiro, esfria a cabeça das gamelas, onde só sai para ocupar seu lugar nas formas, normalmente feitas de madeira.

Finalmente, ela está lá, pronta para ser saboreada. Na mesa do sertanejo é o adoçante do café, do leite, da coalhada... se come com carne de sol, paçoca, mungunzá, cuscuz, milho cozido... se come com farinha! Há quem diga que até curar doença, a danada cura. Os curandeiros também a usavam como adoçante do leite de cabra para os "fracos- do peito". Misturada com mastruz esmagado e azeite quente, cura úlceras e frieiras.

A rapadura vem de um processo tão perfeito que até os velhos fabricantes de garrafada, asseguravam que ela, apesar de doce, não fazia mal a diabético.
E agora vem os cupins do chamado" primeiro mundo" e surrupiam essa marca. Já pensou um alemão fazendo rapadura?!

É a mesma coisa um cabra da bagaceira compondo a 5ª Sinfonia de Bheethoven.

Querer registrar a rapadura...é uma heresia. Antes de qualquer papelada, a rapadura já está registrada no imaginário do sertanejo, no seu dia-a-dia, no coração, é bem verdade. Quer registro maior do que esse e, esse aí ninguém tira não. Sem a rapadura, o homem nordestino não vive.

*Jornalista
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